O gênero literário da ficção científica (em inglês Science Fiction, abreviado como SciFi) nasceu oficialmente com a publicação do romance gótico Frankenstein, de Mary Shelley. De lá para cá diversas obras foram escritas, autores emergiram e subgêneros foram criados; do Soft SciFi ao Cyberpunk, a lista de subgêneros vêm crescendo com o passar dos anos – como por exemplo o nascimento do Solarpunk por volta de 2013.

O SciFi ganhou força na na segunda metade do século XIX , com os livros do autor Júlio Verne(considerado por alguns críticos o pai da ficção científica) e de vários outros autores da época. O termo “Science Fiction”, porém, só começou a ser usado no século XX, com a publicação da literatura por Hugo Gernsback na revista Amazing Stories, em 1926, dedicada ao gênero. A partir daí surgiram os mais famosos ícones da ficção científica do século passado, como Isaac Asimov, Philip K. Dick, Arthur C. Clarke, Ursula K. Le Guin, e muitos outros.

Foram previsões ou só coincidência?

Ainda no século XIX, Júlio Verne retratou, em obras como Viagem ao Centro da Terra e Vinte Mil Léguas Submarinas, tecnologias como submarinos e máquinas voadoras muito antes de serem desenvolvidas, além de narrar à viagem do homem à Lua, muitas décadas antes dela ser realizada. Mas é no século XX que vemos especulações tecnológicas e científicas com uma incrível verossimilhança com invenções que viriam a seguir, dentro da onda de Hard SciFi, subgênero que possui narrativas construídas com um alto detalhamento científico.

Arthur C. Clarke ganhou fama por suas previsões acerca do futuro e contribuições científicas. Muito do que ele previu se concretizou, como as telecomunicações, por exemplo. “Essas coisas vão tornar possível um mundo onde poderemos estar em contato instantâneo um com o outro, onde quer que estejamos”. Não é difícil ver que Clarke estava prevendo nada mais nada menos que: a internet. Clarke também falava muito sobre a tecnologia por satélites, sendo um dos responsáveis por desenvolver os satélites geoestacionários.

“A tecnologia por satélite deu ao mundo TV, telefones e internet”, Arthur C. Clarke

Ideias do futuro ou do presente?

Podemos dizer que a arte e vida mantêm um diálogo intermitente, sendo o papel da ficção científica nos permitir extrapolar o palpável, apresentando novas realidades à partir da que nos encontramos. Ursula Le Guin, em sua obra A Mão Esquerda da Escuridão, retrata o SciFi como uma ferramenta capaz de transcrever ideias para o futuro já interiorizadas em nós humanos:

“A Ficção Científica é um experimento mental que não tem o objetivo de prever o futuro, mas descrever o presente, o que já habita a mente do ser humano”, Ursula Le Guin

Não é coincidência, é desenvolvimento tecnológico

Os tablets se tornaram tecnologias presentes na atualidade, ganhando cada vez mais popularidade na última década. A ideia de um aparelho como esse, entretanto, é bem mais antiga, sendo retratada pela primeira vez na série clássica de SciFi: “Jornada nas Estrelas“, de 1966. Depois disso, apareceu no filme de Kubrick, “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968) – inspirado pelo conto “The Sentinel” (1951) de Clarke – com o protagonista utilizando um dispositivo chamado “Newspad”, muito semelhante aos tablets atuais.

Essas duas obras de SciFi não simplesmente previram a invenção dos tablets, foram essenciais para que ela ocorresse. Os donos das grandes empresas de tecnologia muitas vezes recorrem à ficção científica par ao desenvolvimento de novos dispositivos, ou são influenciados por ela. São obras como “Blade Runner” (de Philip K. Dick) e “Eu, Robô” (de Isaac Asimov) que, questionando a Inteligência Artificial e aparatos de uma tecnologia hiperdesenvolvida, são responsáveis pela geração de insights para o desenvolvimento tecnológico, uma vez que extrapolam seu limite atual, abrindo caminho para o questionamento, criatividade e consequentemente, a criação de novos dispositivos e aparatos tecnológicos.

As empresas ficam de olho na ficção…. e nos autores delas

Visto o que foi dito acima, faz sentido que vários escritores de ficção científica se encontram trabalhando ativamente para o desenvolvimento científico. Alguns autores de SciFi são procurados por institutos de pesquisa, empresas de tecnologia e até mesmo governos, para trabalharem em conjunto no desbravamento do futuro tecnológico.

Um grande exemplo atual é Neal Stephenson, autor de Snow Crash, tido por muitos como uma espécie de “tech Nostradamus”, por retratar em sua literatura de tecnologias portáteis ao famoso “the Metaverse”, um tipo de experiência de realidade virtual online sem fio, onde as pessoas interagem através de avatares (aliás foi Neal que introduziu o conceito de “avatar”). Hoje, esse espaço tridimensional teorizado por ele é uma tecnologia extremamente disputadas entre as empresas de tecnologia, além disso, o escritor também é responsável por ter inspirado o designer Avi Bar-Zev no desenvolvimento do Google Earth. Stephenson foi contratado pela empresa de tecnologia de realidade virtual Magic Laep, se tornando o Futurista Chefe em 2014.

O futurista Michell Zappa, criador do instituto de pesquisa virtual Envisioing, realizou em 2018 um programa chamado “DEFTECH” (DEFence TECHnologies), com apoio do Armasuisse (Departamento de defesa do Governo das Suiça). Nele, foi feito um mapeamento das tecnologias fictícias retratadas nas obras de “2001: Uma Odisseia no Espaço“, “Blade Runner: 2049“, “Neromancer” e “Detroit: Became Human“, com o intuito de investigar a relação entre elas e o atual desenvolvimento científico.

“Neste ano, o programa DEFTECH (DEFence TECHnologies) se focou nas mesmas intersecções e começamos a medir a relação entre o nível de maturidade de uma tecnologia (Technology Readiness Level ou TRL) e as citações originais da tecnologia apresentada na ficção científica.”, Michell Zappa

Desta forma, a relação entre a ficção científica e o desenvolvimento tecnológico e científico é imprescindível, sendo através das décadas explorada por inventores, cientistas, futuristas e amantes do SciFi.